Gestão universitária e enfrentamento às violências de gênero: compromissos para além do 8 de março
O 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, é mais do que uma data comemorativa: é um momento de reflexão, denúncia e reafirmação da luta histórica das mulheres por direitos, dignidade e justiça. Em um cenário marcado pelo aumento dos casos de violência contra mulheres e meninas no Rio Grande do Sul e no Brasil, torna-se urgente discutir o papel das instituições públicas na construção de espaços seguros e comprometidos com a equidade.
As universidades, como espaços de formação, produção de conhecimento e gestão pública, não estão apartadas dessas dinâmicas sociais. Pelo contrário, carregam a responsabilidade ética e institucional de enfrentar as desigualdades de gênero e as múltiplas formas de violência que atravessam a sociedade e também seus próprios ambientes.
Nesse contexto, o Observatório Nosotras conversou, em entrevista realizada por e-mail, com a Pró-Reitora Administrativa da Universidade Católica de Pelotas, Magda Pautz Westermann, sobre gestão universitária, responsabilidade institucional e os compromissos necessários para o enfrentamento às violências de gênero para além das reflexões mobilizadas pelo 8 de março.
Observatório Nosotras: Como você avalia o lugar das mulheres na gestão universitária hoje? Quais avanços você percebe e quais desafios ainda persistem?
Magda Pautz Westermann: Vejo que na gestão universitária, tanto acadêmica quanto administrativa, as mulheres conquistaram espaço, mas no meu ponto de vista, especialmente pela educação ser uma atividade de cuidado, tradicionalmente desempenhada pelo sexo feminino, algo que é fruto de uma construção histórica e social que associa algumas atividades, dentre elas a educação, à “vocação natural” para cuidar, atribuída às mulheres. Vale lembrar que no mundo estritamente acadêmico, em especial da pesquisa científica, a participação e protagonismo das mulheres ainda está longe de ser uma realidade, visto que apenas 30% dos cientistas são mulheres.
Mas não é por isso que devemos deixar de reconhecer e celebrar a atuação das mulheres nesta frente, cargos de liderança e alta liderança são desempenhados por mulheres e os dados estatísticos comprovam ainda que, mulheres são a maioria das matrículas nas universidades, então há um acesso mais alargado às oportunidades de estudo e ascensão de carreira, embora ainda persistam desafios exclusivos da mulher, como a sobrecarga de trabalho e a dupla jornada, mulheres mães solo e/ou sem rede de apoio, desigualdades salariais e preconceito.
Observatório Nosotras: O que significa, para você, ocupar um cargo de gestão sendo mulher? Em algum momento você já enfrentou situações de deslegitimação, assédio ou violências simbólicas nesse espaço?
Magda Pautz Westermann: Eu sinto um orgulho imenso, mas ao mesmo tempo, tenho consciência da responsabilidade que é ser mulher e desempenhar um cargo de gestão. Para a mulher, conquistar o cargo e ter formação adequada para desempenhá-lo, não basta. Não basta saber, é preciso provar que sabe, dia após dia; saber posicionar-se, manter-se firme, comunicar autoridade e ainda assim, manter o olhar afetuoso e acolhedor, sem perder o respeito e a credibilidade são alguns dos desafios diários que se enfrenta.
Já enfrentei diversas situações ao longo da minha vida profissional onde ser mulher foi o único fator que determinou um tratamento diferente e desrespeitoso e, quando falo disso, enfatizo que há vários tipos de situações que por vezes, nem percebemos mais, tamanha a naturalização com as quais as tratamos; um exemplo disto são as “microagressões” que se manifestam em diversas situações, tais como interrupções em nossa fala, observações e comentários sobre nossa aparência e nossos corpos, explicações sobre algo que dominamos (mansplaining), apropriação de nossas ideias ou ainda questionamentos sobre condutas e escolhas que competem apenas às mulheres.
Lidar com todas estas variáveis de forma a neutralizá-las e, acima de tudo, demonstrar que elas não são aceitáveis, também compõem o cenário desafiador da liderança feminina.
Observatório Nosotras: As universidades também são espaços onde ocorrem diferentes formas de violência de gênero. Como a gestão pode atuar para prevenir essas situações e garantir que as trabalhadoras se sintam seguras e acolhidas?
Magda Pautz Westermann: A prevenção passa por mudança de cultura e, neste sentido, pela afirmação e fortalecimento de uma cultura de respeito, de conscientização e de treinamentos contínuos e esclarecedores, além de espaços capacitados para a recepção e tratamento de denúncias.
Esse espaço de escuta é fundamental. Neste sentido, trabalhamos com uma comissão interna que lançará nos próximos dias o formulário anônimo de denúncias, que serão recepcionadas e tratadas em âmbito institucional.
Observatório Nosotras: Que políticas ou iniciativas você considera fundamentais para fortalecer uma cultura institucional de enfrentamento ao assédio e às violências contra mulheres?
Magda Pautz Westermann: Na UCPel, a expressiva participação feminina norteia o compromisso com um ambiente de igualdade e respeito. Valorizar o desenvolvimento das mulheres por meio de ações concretas, como a garantia da equidade salarial, o incentivo e a expressiva representatividade em cargos de alta gestão e liderança, bem como o apoio irrestrito ao combate a todas as formas de violência contra a mulher, são iniciativas perenes de reafirmação de uma cultura institucional que não tolera o assédio, tampouco a violência contra a mulher. Hoje temos o Banco Vermelho em nossos Campus, como um símbolo da luta contra a violência, projetos de extensão que se articulam para este fim, o próprio trabalho desenvolvido pelo Nosotras, entre outras importantes iniciativas que reforçam o engajamento da Universidade em projetos e práticas de enfrentamento ao assédio e violência, imprescindíveis para a promoção de um ambiente mais seguro para as mulheres.
Observatório Nosotras: Neste mês de março, que mensagem você gostaria de deixar às mulheres que trabalham e estudam na universidade?
Magda Pautz Westermann: Mulheres são capazes de tudo. E mulheres que ajudam e apoiam outras mulheres são capazes do impossível.
Mulheres precisam de união, de respeito mútuo, de fortalecimento de vínculo. Unindo forças, mulheres impulsionam as suas carreiras, sua liderança, superam obstáculos, tornam-se rede de apoio umas para as outras.
Se cada mulher for capaz de olhar com empatia uma para a outra, construiremos juntas um mundo mais seguro e acolhedor para nós todas.
Sejamos sempre nós, por nós!

A entrevista integra as ações do Observatório Nosotras de enfrentamento à violência contra mulheres na Zona Sul do Rio Grande do Sul, que atua no monitoramento de indicadores, na produção de conhecimento e na promoção de atividades formativas voltadas à comunidade acadêmica e à sociedade.
Por Cristiani Ricordi – Equipe de Comunicação do Observatório Nosotras.
