Familiares denunciam impactos de violência misógina contra meninas no IFSul – Campus Pelotas
Após a divulgação de um episódio de violência misógina no Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) – Campus Pelotas, no qual estudantes organizaram e compartilharam, por meio das redes sociais, um ranking que expunha, objetificava e sexualizava colegas – em sua maioria meninas, muitas delas menores de idade –, mães das estudantes expostas relatam os impactos da violência vivenciada.
A prática, já denunciada publicamente por entidades de enfrentamento à violência contra mulheres e meninas, não se restringe a um episódio isolado ou a uma “brincadeira de mau gosto”. Trata-se de uma manifestação concreta da cultura do estupro, que produz efeitos reais na vida das meninas, atingindo sua dignidade, sua saúde emocional e seu direito à educação.
Os relatos das mães evidenciam medo, constrangimento, sofrimento psíquico e insegurança em relação à permanência das estudantes no ambiente escolar.
Dor, medo e exposição
Mãe de estudante: “Sou mãe e estou profundamente preocupada com minha filha, que foi exposta e difamada por colegas em um ‘ranking’ ofensivo. Isso é violência psicológica e não pode ser tratado como brincadeira. Precisamos de providências para proteger nossas meninas”. [sic]
Mãe de estudante: “Todas nós, mulheres, já sentimos o peso do machismo e o quanto ele nos sufoca, mas a experiência de ver sua filha vivenciar isso pela primeira vez, é uma dor imensa.
Tem sido uma semana difícil, minha filha tem que lidar com o julgamento de quem nem a conhece e o pior, piadas dentro da própria turma, onde deveria ter encontrado acolhimento.
O sentimento é de frustração.
Quando um jovem, em 2026, se acha no direito de expor a imagem de uma menina numa prateleira humilhante dessas, o sentimento é de exaustão, de que nada evoluiu, e de que infelizmente não posso oferecer pras minhas filhas um mundo melhor que o meu”. [sic]
Os depoimentos revelam que a violência ultrapassa o ambiente virtual, impactando diretamente o cotidiano das meninas e sua relação com o espaço educacional, que deveria ser de proteção, aprendizado e acolhimento.
Indignação e exigência de justiça
Mãe de estudante: “É com profunda indignação que venho me manifestar sobre o que aconteceu com a minha filha e outras meninas da instituição. Fotos foram divulgadas sem qualquer autorização, em um grupo formado por alunos, onde elas foram expostas de maneira desrespeitosa, classificadas em um ranking ofensivo e humilhante.
Esse tipo de atitude não pode ser tratado como brincadeira. Trata-se de uma violência moral, que fere a dignidade, a autoestima e o direito à imagem dessas meninas. Como mãe, me sinto revoltada e extremamente preocupada com o impacto emocional que isso causa.
Não podemos normalizar esse tipo de comportamento. É preciso dar um basta. Queremos justiça, não apenas pela minha filha, mas por todas as meninas que foram expostas e desrespeitadas”. [sic]
Mãe de estudante: “Me indigna e ao mesmo tempo me dói ver minha filha enfrentando a misoginia tão cedo. Essa situação me atravessou de um jeito que eu não consigo explicar. Ela, que desde cedo foi criada e educada sem nenhum tipo de preconceito, que está construindo seus sonhos, sua voz, que entende da luta diária que é sermos mulheres em uma sociedade machista, que está compreendendo sua forma de existir no mundo… A violência contra ela e todas as meninas que estavam na lista não pode passar sem que os responsáveis sejam devidamente punidos, pois ela precisou lidar com palavras e atitudes que tentam diminuí-la, silenciá-la, fazê-la duvidar de si mesma.
Dói porque eu vejo o brilho dela, a força que ela tem — e ao mesmo tempo vejo o quanto o mundo ainda tenta apertar, encaixar, julgar. Dói porque a gente quer proteger, quer evitar qualquer ferida… mas nem sempre consegue.
E é aí que nasce algo ainda mais forte dentro de mim: Lembrar todos os dias do quanto nós, mulheres, somos potentes, capazes e merecedoras de respeito. De mostrar que nenhuma voz de fora pode ser maior do que os valores que carregamos por dentro.
Minha filha não vai crescer acreditando que precisa ser menos para caber no mundo. Ela vai crescer sabendo que pode ser tudo — e que nunca, em hipótese alguma, precisa aceitar menos do que respeito. Não iremos nos calar!”. [sic]
Irmã de estudante: “A violência começa assim: silenciosa, disfarçada de ‘brincadeiras de mau gosto’. É nesse terreno que ela cresce até virar mais um número nas estatísticas de feminicídio; não é exagero, é estrutural. Todo crime tem um começo, toda violência avança quando é ignorada. Como irmã de uma das meninas, o que sinto é revolta inegociável. Como mulher, carrego a certeza de que nunca estamos verdadeiramente seguras. Hoje é uma lista. Amanhã, pode ser uma de nós. Que nenhuma mulher se cale”. [sic]
Diante da gravidade dos fatos, as mães manifestam indignação e cobram respostas efetivas. Não se trata apenas da responsabilização dos envolvidos, mas da necessidade de ações institucionais que enfrentem estruturalmente o machismo presente no ambiente escolar.
Por se tratar, em sua maioria, de meninas menores de idade, a situação configura uma grave violação de direitos, exigindo apuração rigorosa, medidas de proteção às vítimas e a implementação de políticas permanentes de prevenção e enfrentamento à violência de gênero nas instituições de ensino.
É fundamental que o IFSul adote medidas que garantam não apenas a responsabilização, mas também o acolhimento das estudantes e de suas famílias, assegurando condições reais de permanência e segurança no ambiente escolar.
A naturalização de práticas como essa não pode ser tolerada. O enfrentamento à violência contra meninas e mulheres exige compromisso institucional, responsabilização e transformação das estruturas que sustentam essas violências.
Não é brincadeira! É violência!
Em caso de violências, denuncie:
• Disque 180
Centro de Valorização da Vida – Apoio Emocional: 188
Conselho Tutelar de Pelotas: (53) 99925-1839
Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM) e Secretaria da Mulher de Pelotas Endereço: Rua Dom Pedro II, 813 – Centro | WhatsApp: (53) 99186-0475
Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA) – Sala das Margaridas Rua Professor Araújo, 900 – Centro | Telefone: (53) 3310-8620
Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM) Endereço: Rua Barros Cassal, 516 – Cruzeiro | Telefone: (53) 3310-8181
Patrulha Maria da Penha – Viatura Endereço: Avenida Bento Gonçalves, 3207 – Centro | Telefone: 190 ou (53) 3309-5311
Vara da Violência Doméstica – Juizado da Violência Doméstica Endereço: Avenida Ferreira Viana, 1134 – Areal | WhatsApp: (53) 99900-1478
Ministério Público – Promotoria de Justiça Especializada de Combate à Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher de Pelotas Endereço: Rua Vinte e Nove de Julho, 80 – Areal | Telefone: (51) 3295-2896
Defensoria Pública Endereço: Avenida Ferreira Viana, 1499 – Areal | Telefone: (53) 3282-2170 ou (53) 99163-9041
Por Equipe de Comunicação Observatório Nosotras
Imagem destacada – Foto: Augusto Ferri/Assessoria/IFSul Campus Pelotas. Disponível em: https://www.jornaltradicao.com.br/pelotas/geral/protesto-reune-alunos-e-movimentos-feministas-em-frente-ao-ifsul-nesta-quarta-feira-25-apos-ranking-de-alunas/. Acesso em: 25 mar. 2026.
